Quero falar do nosso caso de amor antigo com a bola. Esse amor não começa no estádio nem no campinho de rua: vem do útero. O espermatozoide corre atrás da linda bolinha chamada óvulo, afogueado, apaixonado. Se enrola, se enrosca, se funde com paixão desenfreada - e dessa paixão nasce a vida. Você, eu, todos nós.
Em 2006, estávamos grávidos do hexa. Uma gestação de quatro anos. A barriga linda, crescida. O coração do país batendo acelerado. Vida pulsando dentro. Mas toda gravidez pode ter seus momentos delicados. E a do hexa chegou ao momento mais arriscado: Brasil x França, 1º de julho de 2006.
Larguei tudo para assistir. Adoentada, só tinha forças para isso. E meu filho, na época com quatro anos, brincava com seus carrinhos ao meu lado.
Logo no primeiro tempo, ouvi um comentarista da TV falar:
— No futebol é preciso ter atitude.
Instantes depois, alguém “teve atitude” e cometeu uma falta perigosíssima contra nós. Cartão amarelo. Fiquei pensando: que coisa é essa, “atitude”?
Fui ao velho dicionário: “procedimento ou reação do corpo em certas conjunturas”. Conjuntura? “Conjunto de circunstâncias relacionadas. Situação difícil.” Era isso. Estávamos numa situação difícil. Um país grávido do hexa numa situação delicadíssima. Mas o sufoco passou e continuamos a jogar.
Meu pequeno comentarista - hoje com 24 anos - brincava ao meu lado com os carrinhos e soltava frases geniais.
— E joooooga Ronaldinho Gaúúúúcho… joga e peeeeeerde o goooool!
E depois, como um técnico veterano:
— O Brasil perdeu a vontade de fazer gol!
Era isso. O time parou, estagnou...
Conforme o meu pequeno, mas experiente comentarista:
- Paramos de jogar bola esperando que alguém faça o gol por nós!
Verdade! Era isso. O time parou. Parecia que esperava que alguém marcasse por eles. O técnico imóvel, lívido, mudo. E nós, torcedores, assistindo a tudo, vendo o que acontecia, mas impotentes. O país inteiro, grávido do hexa, vendo o sonho escorregar.
E não deu nem tempo para refletir. A França fez o gol. Nossa gestação do hexa dava sinais de complicação - ou melhor, de adiamento. Era hora de reagir. Mas cadê a reação?
O tempo passou. Estamos em 2025. Já são 23 anos de prenhez desde o último título. A barriga do hexa está enorme, chutando forte, pronta para nascer. A gente continua correndo atrás da bolinha — como sempre. Continuamos apaixonados pela bola — essa bolinha que, desde o útero materno, nos faz chutar, correr e gritar:
— Joga pra mim! É minha!
Porque essa é a graça: seguimos apaixonados, seguimos tentando, seguimos jogando. No futebol e na vida. A derrota pode adiar, mas não apaga o sonho.
E que venha o próximo jogo. Quem sabe em 2026? Quem sabe em 2030? O importante é continuar correndo atrás da bolinha. Sempre.