Num momento como este - da chegada do barqueiro do tempo para a travessia, da despedida dos que, mesmo longe, sempre estiveram tão perto - nós nos quedamos a refletir sobre ela: essa, que ao romper o fio de prata do pulsar do coração, segue sua jornada, enquanto nosso peito derrama sentimentos e saudades pelos olhos e abraços apertados.
É dela que quero falar. Não de qualquer jeito, quero falar com poesia, como era tua vida.
Falar de vida. Sim, de vida! Da tua vida, Alejandro. Da poesia que era a tua vida...
Quando te demoravas a olhar o mundo ao teu redor e teu olhar encontrava o que o nosso, muitas vezes, não consegue ver: os invisíveis, os esquecidos, os ignorados em seus costumes, tradições, saberes. Aqueles que lutam para ter voz e quem os ouça. Os estudantes que quase não cabiam em teu escritório na universidade onde sentávamos todos com os pés se tocando sobre o teu divã para ler.
Hoje, Alejandro, as palavras nascem aos borbotões - e eu queria dizer tantas… mas parei na viagem para pensar no teu caminhar pela vida... E as palavras, então, nascem mansas, como quem caminha lenta e descalça pelas lembranças.
Lembranças minhas e dos teus amigos presentes... Lembranças nossas contigo. As minhas tu já sabes... São do tempo em que me acolheste em tua casa para a pesquisa empírica da tese.
Até nas pequenas coisas - que se fizeram grandes - aprendi contigo.
Quando te levantavas cedo e fazias o pão de fécula de mandioca com ovo frito para o café da manhã. Quando, na viagem ao Sertão, paravas o carro na madrugada, em lugar ermo, apenas para olharmos o céu e as estrelas, e comungar da beleza do universo em silêncio e devoção - um momento para respirar em meio ao cansaço do trabalho e das viagens.
Quando te sentavas comigo e me ouvias depois de cada entrevista realizada.
E quando, depois de me ouvir, tecias tuas considerações sobre cada ponto abordado e planejavas comigo o dia seguinte.
Você me ensinou que a pesquisa é também carinho, afeto, cuidado, presença. Que a ciência pode ter o coração aberto, e que o conhecimento nasce do encontro.
Hoje, partiste para tocar as estrelas do céu com a mão - como me dizias que ali, no céu noturno do Sertão da Caatinga, quase se podia fazer.
E nós, que ficamos, seguimos aprendendo com o seu exemplo - olhando o céu e lembrando que o essencial não se perde, apenas muda de forma.
Adiós, amigo.
Tu luz sigue caminando con nosotros!