- Quem abriu esta janela?
Dona Amália correu, atravessando a pequena sala e fechou abruptamente a janela. Em seguida voltou-se para o Joãozinho e indagou novamente:
- Quem foi que abriu a janela?
O menino não respondeu a pergunta da mãe e fixou os olhos na rua e nas árvores de fora.
Lá, o vento soprava forte e a água escorria pelos troncos das árvores. Deitado no meio da rua um grande galho do pé de guabiroba do quintal do Seu Sérgio. Joãozinho sentia medo pois o pai havia comentado que duas casas vizinhas haviam sido descobertas pela forte tempestade e que o muro da casa do Seu Manoel tinha caído. Ele, por vezes, sentia o chão da casa tremer. Então, nesses momentos, bem baixinho para o pai não ouvir ele orava:
- Senhor Jesus, abençoa a nossa casa. Não deixe ela cair Jesus! E voltava à janela para olhar a rua. Joãozinho tinha vergonha de orar.
Com o findar da manhã a tempestade passou e Joãozinho, calmo e feliz, foi brincar na calçada.
Nesse momento, pela rua, passava uma caminhonete levando crianças que cantavam hinos. A caminhonete parou em frente à sua casa e um menino lhe trouxe um papel.
Joãozinho correu levar o papel para sua mãe. Era um convite. Um convite para um piquenique no parque da cidade promovido pela Igreja do município. Como a cidade era pequena todos participavam e Joãozinho sempre estava lá. Havia brincadeiras, jogos e, em seguida, o pastor discursava. Mas, dessa vez, ele não poderia ir. Seu pai ia levá-lo na casa do avô, pois o Natal estava chegando e ele deveria ir buscar o seu presente. Além disso, tio Ildo, irmão mais moço do pai de Joãozinho, que é pastor, estaria lá e Joãozinho gostava muito dele. Assim, foram à casa do avô.
Chegaram lá no sábado de manhã às 10 horas e, de longe, Joãozinho já podia ver o avô sentado na varanda da casa junto da vó Elvira. Quando o pai parou o carro, o menino saltou e correu para os braços do avô, tamanha a saudade.
Em seguida passou aos braços da avó.
Joãozinho ainda não conhecia pessoalmente a Jesus. Seus pais não eram crentes e principalmente o seu pai achava o tio Ildo, que era pastor, muito careta e obcecado.
- Um fanático, dizia. - Não passa de um fanático.
E assim Joãozinho cresceu, em meio à ira do pai e a negligência da mãe.
Tio Ildo sempre lhe dizia que precisava orar pedindo perdão a Jesus por tudo de ruim que tinha feito durante o dia. Mas, Joãozinho tinha medo que o pai dissesse ser ele um fanático também.
Neste fim de semana Joãozinho ia novamente encontrar o tio. Ele chegava no domingo como sempre...
Durante a tarde o avô levou Joãozinho para o rio e lá passaram o resto do dia.
À noite logo nas primeiras horas o menino foi dormir para levantar disposto no dia seguinte.
Joãozinho acordou com o sol entrando pela janela. Olhou para o pátio e viu o tio passeando. Se admirou dele já estar lá. Gritou pra mãe e ela veio correndo arrumar-lhe a roupa enquanto o menino ansiado olhava para o tio lá fora. Mudou a roupa e já ia saindo quando a mãe o segurou:
- Agora vá escovar os dentes, lavar o rosto e tomar o café, ordenou Dona Amália, que não foi ao todo ouvida. O menino passou a escova rápido na boca, esfregou água nos olhos, secou e correu para fora.
O tio, ao ver o menino abraçou-o e o convidou:
- Venha Joãozinho, venha conhecer uma pessoa que eu trouxe.
O menino acompanhou o tio e arregalou os olhos ao ver um pinheiro de Natal ainda pequeno, mas verde e vivo, que o tio trazia pela mão. Ao lado dele, uma caixa de madeira que guardava um presépio.
Joãozinho não sabia o que dizer. Nunca tinha visto um pinheiro assim de perto, nem figuras tão bonitas como aquelas que o tio cuidadosamente retirava da caixa: Maria, José, o Menino Jesus, os pastores, os animais, a estrela.
- Este é o verdadeiro presente de Natal, Joãozinho, disse o tio Ildo, sorrindo. - Não são só os brinquedos, mas o nascimento de Jesus, que veio ao mundo para estar conosco.
O menino se aproximou devagar, com um respeito que nem sabia explicar. Tocou as folhas do pinheiro e depois olhou para a manjedoura de madeira onde o Menino repousava. Sentiu o coração apertado e ao mesmo tempo leve, como quando orava escondido durante a tempestade.
A avó Elvira chegou trazendo enfeites guardados em uma caixa de papelão. O avô, com calma, ajudou a firmar o pinheiro num vaso de barro. Toda a família se reuniu na varanda, e ali começaram a montar juntos a árvore e o presépio.
Enquanto pendurava uma pequena estrela no alto do pinheiro, Joãozinho pensou em sua oração secreta, naquela manhã de vento e medo. E, sem vergonha, deixou escapar em voz baixa, mas clara:
- Obrigado, Jesus.
O tio o olhou de longe e piscou, como quem compreendia. Joãozinho sorriu, porque naquele Natal ele sentia que tinha encontrado um amigo verdadeiro.
Escrita por mim aos 15 ou 16 anos e deixada - quase finalizada - num velho caderno de poemas. Difícil pensar num final após tantos anos, mas Aurora me ajudou e aqui está: uma pequena história de Natal.